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quinta-feira, 13 de maio de 2010

Sociobiologia

Uma das maiores barreiras mentais que encontro sistematicamente nas pessoas é a não aceitação de que o ser humano é a continuação da evolução de um primata, e de todas as consequências que daqui advêm.
É normal que assim seja: além de haver grandes diferenças entre o animal humano e os animais não-humanos, vivemos há milénios com uma linguagem e um pensamento antropocêntrico (ter em conta a relação de condicionamento mútuo linguagem <-> pensamento) e que a ciência vai, lentamente, destruindo (Galileu, Einstein, Darwin e tantos outros).
Mas é tempo de mudar esta visão, não podemos simplesmente ignorar a teoria darwinista e as suas consequências. Seria como vir um camião na nossa direcção e nós olharmos para o lado fingindo que não o viamos.
Assim, na sequência da última aula e da aula sobre determinismo, deixo-vos o meu trabalho de psicologia sobre a Sociobiologia. É muito modesto tendo em conta a complexidade dos temas, e apresenta imensas lacunas que só seriam passíveis de explicar se tivesse tido a possibilidade de escrever mais umas dezenas de páginas. Como não tive, recomendo a leitura do livro "Evolução para Todos" do David Sloan Wilson. Mind changing.
Aqui fica então o trabalho na esperança de que deixe umas luzinhas :)
(Prof, sore o que falámos acerca da relação física<->filosofia, aproveite para aprender um pouco sobre biologia :P)
Sociobiologia
A Evolução, a Cooperação e o Ser Humano


Introdução
Com este trabalho pretendo aprofundar e partilhar os meus conhecimentos sobre uma matéria que me fascina desde de que com ela entrei em contacto: a Sociobiologia. É um ramo da ciência biológica muito recente mas que apresenta já promissoras teorias e pontos de vista, sendo alguns dos mais reconhecidos biólogos contemporâneos divulgadores desta disciplina.
Não pretendo aprofundar muito o tema (isso seria material para vários livros e trabalhos) mas antes explorar alguns aspectos específicos que a sociobiologia estuda e que me cativam: a cooperação enquanto parte da evolução social animal e o seu papel na evolução do ser humano.

Desenvolvimento
O termo sociobiologia foi difundido em 1975 com o lançamento do livro Sociobiologia: A Nova Síntese de Edward O. Wilson. A sociobiologia é um ramo da biologia que estuda a organização dos seres vivos em sociedade. Na grande maioria dos casos, esta disciplina trata o comportamento dos animais não-humanos, embora também haja casos de estudos de seres de outros Reinos (Protista, Monera, Fungi ou Plantea).
A sua premissa é a de que os comportamentos que regulam as relações sociais têm, em parte, origem genética. Exemplos destes comportamentos serão a agressividade e a simpatia. No contexto científico e social da altura estas afirmações causaram grande controvérsia visto que estes comportamentos eram vistos como adquiridos apenas por via sociocultural. Na verdade, esta continua a ser uma ideia partilhada por muita gente e a controvérsia à volta da sociobiologia mantém-se.
Toda esta disciplina científica é baseada, como é óbvio, na teoria darwinista da evolução e no conceito de selecção natural. Abster-me-ei de explicar estas ideias por se tratarem de conhecimentos básicos da biologia.


Por ser um tema muito vasto tratarei apenas um aspecto específico, mas muitíssimo estudado, que a mim me interessa mais: a maneira como a selecção natural actua sobre as relações de altruísmo e egoísmo.
A maioria das pessoas associa a teoria de Darwin à “vitória” do egoísmo sobre o altruísmo, sendo o primeiro considerado sempre uma característica benéfica para sobrevivência do indivíduo. Esta ideia, que aparenta “ser directamente deduzida” da teoria de Darwin, deu até origem ao Darwinismo Social, uma teoria política que defende que a evolução humana deve ser feita pela selecção com base na classe social (indivíduos com mais dinheiro são, necessariamente, indivíduos mais aptos e, portanto, mais evoluídos – os outros devem ser naturalmente eliminados).
No entanto, eu vejo exactamente o contrário: a possibilidade de refutação desta teoria (ou pelo menos da refutação da sua “dedução directa” a partir do darwinismo) pela compreensão da dinâmica social inter ou intraespecífica.

Comecemos então por provar que há contextos em que o altruísmo pode ser benéfico. Imagine-se um ser moralmente perfeito e um outro ser que personifica o próprio mal. O primeiro será necessariamente honesto, bravo, leal, tolerante e altruísta, o segundo falso, egoísta, odioso, avarento, cobarde e traidor. Não digo “necessariamente” para impor a minha visão de moral, mas antes porque David Sloan Wilson, um conhecido sociobiólogo de cujas ideias falarei mais tarde, pediu a vários públicos, um pouco por todo o mundo, que fizessem uma lista de características relacionadas com o bem e uma de características relacionadas com o mal; as listas eram semelhantes e apresentavam as características anteriores. Mas voltando ao nosso exemplo: temos então o estereótipo de um ser perfeitamente bom e o de um ser perfeitamente mau. O que aconteceria se puséssemos um de cada numa ilha deserta? A resposta surge-nos óbvia: o mau trucidaria o bom em três tempos (e aqui está o pensamento simples e redutor que nos leva ao darwinismo social).
Se, por outro lado, tivéssemos duas ilhas separadas e numa puséssemos um grupo de maus e noutra um grupo de bons? Esta experiência mental também não oferece grande problema: o grupo de maus autodestruir-se-ia rapidamente e o grupo de bons colaboraria evoluindo para sair da ilha ou para sobreviver o máximo de tempo possível.
Pensemos num último caso, o que acontece se pusermos numa ilha um número x de indivíduos bons e um número y de indivíduos maus? Aqui torna-se mais complicado, não sabemos responder a questão por ser uma combinação complexa dos últimos exemplos.

Este simples gedankenexperiment (palavra que Einstein usava para referir as suas experiências mentais) demonstra um ponto importantíssimo: há possibilidade do “bem” ser benéfico para o indivíduo em termos de selecção natural, desde que em determinadas condições. Assim, há também uma possibilidade para o altruísmo.
Poderemos talvez generalizar esta ideia: quando se trata de selecção dentro de um grupo o comportamento egoísta deverá prevalecer. Mas quando falamos de selecção entre grupos o comportamento altruísta é o mais benéfico.
Mas isto diz-nos também que um dos maiores impedimentos à difusão de genes “altruístas” poderá ser o “aparecimento” de egoísmo no seio do próprio grupo.

Exemplos da generalização anterior? Vamos aos insectos! As abelhas, vespas, formigas e térmitas são óptimos exemplos. Algumas das espécies evoluíram para ter comportamentos tão altruístas que as suas colónias (sejam termiteiras, formigueiros ou colmeias) já podem ser consideradas como organismos, visto que os seus vários membros desempenham papéis totalmente diferentes que fazem funcionar todo o sistema (há semelhança dos nossos órgãos, ou células). Segundo os cálculos actuais este tipo de evolução dever-se-á ter dado apenas 15 vezes nos insectos. No entanto, foi tão benéfico que os elementos das espécies que assim vivem constituem mais de metade da biomassa de todos os insectos do mundo, uma classe que conta com 800 mil espécies descritas.

Está compreendida quão fundamental pode ser a importância do altruísmo na selecção natural, certo?

Passemos então a explicar duas formas de altruísmo que podemos encontrar na natureza.
O primeiro, o altruísmo pelo parentesco, está irremediavelmente ligado ao nome de Richard Dawkins, o famoso sociobiólogo anti-teísta (ou ateu, não tenho a certeza) que está correntemente a preparar-se para mandar prender o Papa. No seu livro, O Gene Egoísta, explica-nos que “quanto maior for o grau de parentesco entre dois indivíduos, maior será a partilha de material genético” pelo que a maior parte indivíduos terá mais tendência a acções altruístas para com indivíduos com um grau de parentesco mais próximo. Estas atitudes resultam claramente na perpetuação do gene, verificando-se as condições para que sejam beneficiadas face à selecção natural.

O outro tipo de altruísmo, chamado Altruísmo Recíproco, foi proposto por Robert Trivers na década de 1970. Afirma que o altruísmo pode ser benéfico entre seres com material genético diferente, sendo estes da mesma espécie ou de espécies diferentes. Existem exemplos de relações altruístas interespecíficas como a entre “peixes limpadores” e os seus peixes hospedeiros. Estas relações entre espécies resultam ocasionalmente em casos de simbiose.
Também David Sloan Wilson suporta a ideia de altruísmo recíproco no seu livro Evolução para Todos. Um dos exemplos que aponta é as várias comunidades de macacos em que cada elemento do grupo tem uma função própria colaborando para o funcionamento do grupo. Esta forma de altruísmo não se verifica necessariamente entre parentes próximos, mas antes entre seres de uma mesma comunidade. Embora este tipo de altruísmo me faça sentido enquanto possibilidade biológica benéfica, penso que falha no que toca a explicar como se dá essa transição de um indivíduo com essa tendência genética para um grupo de indivíduos com a mesma. Afinal de contas, o altruísmo e desvantajoso no que toca à selecção dentro do próprio grupo.


Com os exemplos dos insectos e das comunidades de primatas penso que fica parcialmente ilustrada a ideia de uma sociedade cooperativista: diferentes membros têm diferentes funções e colaboram todos para o funcionamento da sociedade. Esta sociedade pressupõe a existência de “altruísmo” (segundo o conceito que temos utilizado até agora) visto ser necessária uma determinada predisposição para o colectivismo (vida em colectivo) e não para o individualismo (em que cada um trabalha apenas para si próprio). Um bom exemplo de um dilema entre altruísmo vs egoísmo, muito invocado nestas questões, é o famoso Dilema do Prisioneiro – que nos remete para importantes noções de equilíbrio essenciais a este tipo de relações.

Neste último parágrafo falei em predisposição para o colectivismo porque estamos a assumir que um animal que funciona numa comunidade cooperativista não tem noção desse seu papel; ele simplesmente… funciona assim.
Mas e o ser humano?
A possibilidade de haver uma Sociobiologia Humana é muitíssimo controversa, mesmo entre os mais famosos sociobiólogos. Mas o leitor terá porventura reparado que muitos dos termos que tenho utilizado para falar de sociedades de animais não-humanos são também aplicáveis às sociedades humanas. Não podia ser de outra forma: tendo em conta a teoria darwinista o ser humano é a evolução de outros animais, pelo que os princípios básicos pelo qual as sociedades se regem têm de ser os mesmos.
A sociobiologia, tentando explicar as sociedades e o ser humano, deu origem a um ramo da psicologia chamado Psicologia Evolucionista que “propõe explicar características mentais e psicológicas - tais como memória, percepção, ou linguagem - como adaptações, e portanto, a mente pode ser melhor entendida à luz da
evolução humana.”*
Mas a vertente da sociobiologia que pretende explicar a evolução humana e que gostava de expor aqui não vem da Psicologia Evolucionista mas antes do autor David Sloan Wilson (DSW) que propõe, de novo na sua obra A Evolução para Todos, que o grande passo evolutivo que separou o ser humano de todos os outros animais foi a capacidade de cooperação!


(estes parágrafos são para o suspanse)



DSW sugere que evoluímos de um grupo de primatas que já viviam numa comunidade cooperativista e igualitária. A partir do momento em que este tipo de regime social (sim, são macacos mas podemos chamar-lhe regime social!) estabilizou, o nosso corpo e a nossa mente deverão ter evoluído no sentido de sermos o mais eficazes possível nesse colectivismo.
Esta ideia não só dá um novo significado científico à famosa frase de Aristóteles “O Homem é um animal social”, como explica várias características físicas e mentais que nos diferem dos restantes animais.
Uma das mais simples é o tamanho da nossa pupila. O leitor já reparou que a nossa espécie é das únicas em que o tamanho da pupila relativamente ao restante globo ocular visível permite ver para onde estamos a olhar? Na grande maioria das outras espécies, e em todos os primatas, não é possível saber para onde dirigem a sua visão a não ser a partir da orientação da cabeça. Os olhos são um órgão importantíssimo na comunicação entre humanos, até lhes chamamos “as janelas da alma”! Sendo importantes para a comunicação são, claro, importantes para a cooperação (também a nossa capacidade de fala seria um exemplo de comunicação para a cooperação).
Outro exemplo será a forma como evoluíram as nossas emoções – nenhum outro ser tem um sistema emocional e moral como o nosso. Estes sistemas têm uma função muito importante na união de um grupo.

Entra também aqui a dimensão cultural. O ser humano é o animal cultural. Aliás, a cultura só costuma mesmo ser considerada enquanto característica da espécie humana. No entanto há comunidades de gorilas que aprenderam a utilizar paus para capturar formigas, conhecimento que é passado de geração para geração. Como podemos dizer que isto não é cultura?
Penso que devemos mudar o conceito de cultura para todos os comportamentos animais que não são uma simples reacção genética aos estímulos ambientais. Ou seja, a todos os comportamentos transmitidos.
Mas voltando à questão central: o ser humano evoluiu para ter uma tendência enorme para a criação e a adesão a uma cultura. Os nossos polegares oponíveis (que permitem a criação de objectos), capacidades de canto (produção de música) e, principalmente, as nossas capacidades de associação simbólica.
Existe também um profundo sentimento de pertença a uma comunidade que é muitas vezes experienciado em situações de acção comum (cantar, dançar, marchar, etc.…) e que começa agora a ser estudado.

Todos estes factos suportam a teoria de DSW, mas há um outro ainda mais interessante. De volta ao sentido de moralidade e tendo em conta a gedankenexperiment proposta no inicio: o leitor já reparou que todas as características que associamos ao bem são, de facto, características benéficas à vivência em sociedade cooperativista?

É esta a ideia de DSW: o ser humano é a evolução de um primata no sentido da máxima cooperação.


Conclusão
Sendo um ramo recente, a Sociobiologia tem ainda muito para explorar. DSW, por exemplo, não é um dos mais famosos sociobiólogos da actualidade mas brinda-nos com teorias fantásticas e plausíveis que mudariam por completo a maneira de nos vermos a nós próprios.
Há factos favoráveis a algumas teorias sociobiológicas, outros desfavoráveis. Mas, fundamentalmente, ainda não houve investigação suficiente nesta área para que haja factos que indiquem de forma mais precisa quão certas ou erradas poderão estar as várias teorias que derivaram da sociobiologia. Até porque dentro da própria sociobiologia há teorias que se contradizem.

(....)


Bibliografia:
*retirado de Wikipedia
Sloan Wilson, David. A Evolução para Todos, Gradiva, 2007


Pedro Feijó
12ºA nº20

segunda-feira, 1 de março de 2010

Resposta à Matxiuailde

A existência de um fundo mundial para a investigação científica não é um impedimento a que os países não invistam também em investigação a nível nacional.Portanto a alínea c) não me faz muito sentido.

Por outro lado, há necessidade mundial de determinadas descobertas científicas, tanto pela sua utilização tecnológica como pelo simples facto de querermos avançar com a ciência a nível teórico. As ondas serve para Portugal, mas se calhar dava jeito energia solar mais eficaz para todo o mundo. Por outro lado se muitos países produzissem energia a partir das ondas (e há, claro, muitos países com costa) escassez de energia seria menor e, portanto, os países que não têm costa podiam-na comprar mais barata (acho eu, mas tu é que és de economia xD).

Relativamente à a) bastava que a participação económica nesta "sociedade" mundial fosse proporcional às capacidade económicas de um país (como os impostos).

Quanto à c) porque não criar um comité de bioética mundial e escrever algo parecido com a Carta dos Direitos Humanos para a utilização de conhecimentos científicos?

d)e restantes: Já ouviste falar do CERN? Estão à beira de fazer descobertas científicas importantíssimas, não me parece que estejam a esbanjar dinheiro.A colaboração funciona bem= dá jeito ter os maiores crânios do mundo a pensar na mesma sala.E o facto de disponibilizares os conhecimentos obtidos a todos aumenta imenso o progresso da ciência!

Especificamente ao que dizes da relação da ciência com o lucro: não podia estar mais em desacordo. Penso que a tua mudança não responde ao comentário do prof. Como seria se tivesse sido assim com o genoma?

(Ah!! espera, teria sido como foi com o tamiflu e a gripe suína! Vê lá o dinheiro que os países não esbajaram nisso quando podiam ter descoberto a partir da tal sociedade. Vejam este vídeo e comentem:).

Por outro lado, ter em consideração que a investigação científica tem de estar à procura do lucro não me faz sentido absolutamente nenhum. Eu ia argumentar a partir da questão moral e do papel da ciência, ia falar de como a ganância podia deturpar os ideais da ciência e mais de uma data de coisas que acho que, moralmente, vão contra esse conceito. Mas como o pessoal dos lucros é muito dado a consequências e utilitarismos, pego por aí. As revoluções científicas geralmente abrem caminho a milhares de aplicaçõe funcionais e lucrativas (e.g. relatividade geral, mecânica quântica, ou até os Principia de Newton). No entanto, nenhuma destas revoluções tinha o propósito de gerar lucro, mas antes de COMPREENDER a Natureza. É esse o propósito da ciência!

Podes argumentar que então, se dão dinheiro, teriam investimento. Mas isso seria incorrer na mesma errada premissa que invalida as teorias económicas clássicas e neoclássicas: a de que o agente do sistema é perfeitamente racional. Terias de assumir que o agente económico saberia que a descoberta daria dinheiro antes da descoberta ter sido feita. Não me parece que os capitalistas sejam assim tão omnisapientes xD

Quando aqueles protões chocarem na Suiça vais ter um mundo à tua frente que nenhum capital poderia ter previsto.

Acho que era basicamente isto que queria dizer; se me lembrar de mais alguma coisa acrescento a côr.

E viva as Ciências Puras!!!

PS: Sugiro que amanhã se contiue por um bocadinho a discussão da genética (tenho um curto documentário para passar) e que depois se fale da questão das patentes e dos direitos de autor Acho uma discussão extremamente interessante e que, tendo em conta o debate que estamos a ter, não é muito descabido. Além de facilmente se relacionar com o "povo da floresta" do filme da semana.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

progresso cientifico

Antes de mais: retiro a ideia absurda que dei na última aula. Esqueçam por favor aquela parvoíce, que disse sem pensar!

Entretanto pensei sobre o tema com mais profundidade e cheguei a algumas conclusões (espero que mais certeiras):

1 - O Modelo colectivista que propus (uma única comunidade cientifica, financiada por todos os países interessados, estaria encarregue de com esse mesmo capital produzir da maioria das inovações. Estas seriam depois distribuídas por todos os países contribuintes sem excepção)não funcionaria por vários motivos:

a) Como sabemos, o desenvolvimento humano, económico, cientifico, politico, etc não é uma constante de país para país. No Mundo em que vivemos encontramos disparidades tremendas. Se pensarmos, percebemos que o desenvolvimento se encontra directamente relacionado com o progresso cientifico. Não só porque o crescimento económico é necessário para suportar financeiramente a actividade de investigação, como também porque o progresso cientifico incentiva o desenvolvimento a todos os níveis. Por assim dizer, a Alemanha registou em 2006 51260 famílias de patentes e que nesse mesmo ano a Índia verificou 1559. Será coincidência o facto da Alemanha ser o 22º país mais desenvolvido do Mundo (por IDH) e a Índia ocupar o 134º lugar?

b) Portanto é óbvio que as inovações/descobertas cientificas não devem ser colocadas à disposição de todos, sem discriminação. Afinal, conforme a moral de certo país ele pode utilizar uma "invenção" diferenciadamente. Tal como vimos, a maioria das descobertas cientificas pode ter aplicações muito variadas, provavelmente a tecnologia da clonagem teria uma utilização muito diferente em França da que teria no Iraque. Se um país chegou a um estado de progresso cientifico avançado, não terá sido por sorte.

c)A criação de uma comunidade cientifica única, independente, global seria, numa palavra: um desastre. A comunidade cientifica deve ter como primordial objectivo a satisfação das reais e possíveis necessidades da população em que se insere e assim, a melhoria da qualidade de vida da mesma. Portanto as prioridades vão variar de país para país. Se em Portugal é imperativo encontrar uma solução eficaz para o aproveitamento energético das ondas, com certeza que a comunidade cientifica da Suiça não estará minimamente interessada neste problema. É assim essencial para a manutenção da utilidade do progresso cientifico a comunicação com a população.

d)O desastre seria ainda maior se a comunidade fosse financiada pelos múltiplos países, porque este processo tornaria o fundo de capital praticamente ilimitado. E já sabemos o que acontece a organizações de financiamento sem fundo: acabam por cair em enormes desperdícios, utilizam o dinheiro para viabilizar projectos sem interesse para as populações, e pior, acabariam por não encontrar soluções apropriadas para problemas de escassez - poupança (haha).

2 - Outras reflexões:

a) A produção cientifica assemelha-se à produção artística: pode ser proibida mas nunca pode ser evitada.

b) A produção cientifica não deve, TEM DE ser lucrativa. Afinal, a grande via para o crescimento económico e desenvolvimento humano neste momento é sem dúvida a inovação, o investimento em I&D etc. Como tal não faria qualquer sentido que se democratizasse gratuitamente a utilização da mesma.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Resposta aos últimos posts do Gonçalo e do Vasco

E viva o determinismo biológico! Vocês não sabem mas lá no fundo são todos deterministas xD


O Vasco tocou, a meu ver, na grande questão a discutir sobre a pena de morte e todo o sistema penal. A pergunta é fácil: Para que serve este?

Em primeiro lugar, e penso que nisso todos concordamos, é para que não haja mais problemas causados por a pessoa que vai presa. Ou seja, é uma forma de prevenção.
Mas essa prevenção deve ser feita evitando que as pessoas que cometeram o crime voltem para a sociedade? Ou dando a oportunidade de mudança de conduta a essas pessoas em troca de liberdade?

A meu ver, a resposta à primeira pergunta é um explícito não e a resposta à segunda é um forte sim!


Não é por acaso que digo "pessoas que cometeram um crime" em vez de "criminosos":
David Sloan Wilson, um conhecido evolucionista moderno, diz com muita razão “que todos somos potenciais sociopatas”; e tenho poucas dificuldades em imaginar a generalidade dos psicólogos a concordar com esta afirmação. Ninguém está à nascença geneticamente definido para ter determinados comportamentos, trata-se de uma articulação entre o que nos é inato e o que é adquirido por estímulos (ambiente, educação, possíveis traumas, etc…) que se insere nos tão vastos sistemas de equações da nossa vida já aqui referidos.
Esta relação genes/estímulos não existe só nos humanos como também nos animais. Um exemplo: um bebé gorducho terá menos apetite em adulto que um bebé magricelas porque o estímulo lhe está a indicar que vive num meio rico em alimentação (e viva a evolução!). Da mesma forma que, em geral, ambientes de escassez e desigualdade levam a atitudes competitivas de luta pela sobrevivência ao contrário de ambientes de abundância e igualdade, que levam ao desenvolvimento cultural e à colaboração.
Assim, com estímulos certos (aliás, errados), todos nós nos podíamos ter tornado em pedófilos, violadores, ladrões ou assassinos. (eu diria que para os primeiros dois crimes poderia bastar um grave trauma sexual, como ser violado ou vitima de pedofilia, e para os últimos dois bastava, certamente, a escassez de alimentos e uma forte probabilidade de morte de quem nos é querido).~


Com base nestas ideias eu diria que o melhor sistema penal possível começaria na mudança do panorama social (não é por acaso que há mais crimes em bairros sociais, e não me digam que é uma questão de genes!), a melhor prevenção possível.
Depois, a total proibição da pena de morte e da pena perpétua, visto não serem medidas de mudança comportamental, mas antes vestígios do nojo que são as ideias nazis do “determinismo genético”.

Por fim, uma mudança geral de todo o sistema de atribuição de períodos de encarceramento. Em vez de serem definidas penas tão fixas penso que seria justo haver reavaliações frequentes e acompanhamento contínuo do estado psicológico de todos os prisioneiros para ver se os seus crimes foram algo que se deveu a uma situação momentânea ou se há probabilidade de ocorrerem outra vez. E claro que tudo isto teria de ser bem articulado com a gravidade do crime (release the junkies!! xD).

O Gonçalo deu o tipo de exemplo que resulta muito bem para defender a pena de morte: um puto entra na escola e mata os seus colegas todos. Não sei se tens reparado nos casos que costumam aparecer, mas geralmente o puto com a arma costuma matar-se a si próprio no final. Não é por acaso, é porque se tratam de crianças com sérios problemas mentais (certamente com uma boa parcela genética) que vivem num outro mundo cheio de solidão, ódio e medo.
Não sei se reparaste também que estes casos costumam aparecer em duas zonas geográficas: nos EUA e nos países nórdicos da Europa. Curioso que se tratem exactamente dos países em que a intolerância face à diferença, a competitividade, o rigor e a disciplina são levados mais ao extremo... não é? Eu próprio acho que se vivesse numa escola com estes ideais virava maluquinho..


Abraço!

PS: Começo aqui a deixar algumas bases para a minha ideia do determinismo, mas não quero escrevê-la aqui completa antes de ter a oportunidade de explicá-la na aula.
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